quarta-feira, 16 de julho de 2014

A "copa das copas" termina em fracasso, vexame e uma boa lição

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Eu já li algumas crônicas sobre o maracanaço, ficava me perguntando como seria a dor de perder uma Copa do Mundo em seu próprio país, para minha decepção agora sei como é, e pior, sem ver minha seleção jogar. O chocolate que a seleção alemã impôs à seleção brasileira deixa uma lição, e por incrível que pareça, pouco tem haver com futebol. A derrota de 7 x 1 que levamos no Mineirão é apenas um reflexo daquilo que estamos plantando no Brasil.
O “jeitinho brasileiro”

O “jeitinho brasileiro” foi enaltecido, a malemolência, a malandragem e a busca da vida fácil onde se ganha muito dinheiro trabalhando pouco, o sonho de todo brasileiro. Sempre achei estranho que um dos maiores orgulhos do brasileiro ser a capacidade de se dar bem. Nós, brasileiros, ajudamos a enaltecer a imagem do malandro carioca, do baiano preguiçoso e tantas outras imagens que enfraquecem e escondem a grandeza do nosso povo.

A ilusão de que é possível alcançar objetivos sem planejamento

A Copa do Mundo foi anunciada que seria no Brasil em 2007, ou seja 7 anos antes do mundial. De lá para cá a euforia tomou conta do país, os políticos prometeram o céu aos brasileiros. E cada vez que aparecia um aumento de orçamento, um novo atraso, cancelamentos de obras e etc, sempre vinha alguém e dizia “no fim dará tudo certo, basta acreditar”. Sempre que alguém criticava as obras da Copa ou a seleção, logo era chamado de pessimista, que não era patriota e que deveria então sair do país.

Nosso vexame começou muito antes. Gastamos R$ 35 Bilhões e só conseguimos terminar os estádios, e mesmo assim a apenas 15 dias do mundial. O trem bala não chegou, os metrôs não chegaram, a mobilidade urbana não veio, continuamos sem hospitais e aeroportos. Ou seja, o tal legado da copa foi para as cucuias.
Da mesma forma a nossa seleção se preparou para a copa, ou seja, de qualquer jeito. O clima de oba-oba tomou conta, afinal, a copa era aqui e somos o país do futebol. A cada jogo da seleção, os jogadores ganhavam folga e iam para casa, o que parecia nos noticiários era muita alegria e pouco treinamento.

Mas isso não se resume apenas às obras do mundial ou à preparação da seleção, tem muito a ver com aquilo que estamos fazendo com nosso país. Estupidamente tentamos transformar nossas escolas em parques de diversões, de norte a sul do país vemos “educadores” dizendo que educação não combina com cobrança, seriedade. Que a escola deve ser um lugar de diversão e não de sofrimento. Estamos facilitando que alunos sem condições avancem sem esforços e a consequência é que se formam sem nada saber.

 O que nossa seleção passou hoje no Mineirão é o reflexo do que estamos fazendo com as gerações futuras, fizemos uma seleção que sabíamos que não tinha condições acreditar que poderia e da mesma forma estamos fazendo nossas crianças e jovens acreditarem que poderão ser bem sucedidos na vida sem esforços e conhecimento. Ficamos estatelados ao ver o Brasil despencando nos índices de educação, ao ver nossas faculdades despencando nos rankings mundiais, nem mesmo perto da América do sul nossa situação é confortável. Mas assim como fizemos com a seleção, preferimos não ver, preferimos acreditar que mesmo fazendo tudo errado o resultado será bom. A diferença é que os jogadores desta seleção carregará este péssimo resultado, mas de certa forma possuem suas vidas ganhas, ao contrário de nossa juventude que graças a um conjunto de mentiras e ilusões está sendo jogada em um abismo que pode não ter volta. Afinal, como já diziam os antigos, não pode um pé de jamelão produzir morangos.

A lição alemã

Da mesma forma que podemos associar o fracasso da seleção brasileira ao modelo que vigora em nosso país e ao espírito carregamos, podemos associar o sucesso alemão com o modelo que eles seguem e o espírito que carregam.

O alemão é um povo chato, diz o brasileiro, sem graça, sem alegria. Mas o que o brasileiro não vê é que por trás da seriedade alemão existe um comprometimento com tudo que eles se pretendem a fazer e a alegria e a festa só vem depois de alcançarem os objetivos e nunca antes.

A Alemanha possui uma história dura, e comparada ao Brasil deveria estar muito pior que nós, o país foi destruído há 69 anos atrás com o fim da II Guerra Mundial e até 1989 viveu uma terrível tensão, tendo o país dividido por um muro. A seriedade alemã é compreensível ao se olhar sua história. Mesmo assim tiveram força e em momento algum procuraram “amolecer o sistema” ou relaxar as cobranças, muito pelo contrário, a seriedade na formação das novas gerações construíram um país forte e a maior potência européia da atualidade e isso se reflete nesta seleção alemã. Vale lembrar que a Federação Alemã possui uma belíssima parceria com as escolas do país e metade dos jogadores desta seleção foram descobertos nas escolas daquele país sério e sem graça.

Durante o mundial, mesmo muito descontraídos, os alemães não perderam o foco em momento algum, se isolaram no sul da Bahia, e não entravam no clima de oba-oba após cada vitória. Treinavam sério dia após dia sob o sol do meio-dia da Bahia e estudavam duro cada adversário e entre um compromisso e outro apareciam uma foto ou um comentário em uma rede social, mas sem muita empolgação.

Se fica uma lição disso tudo é que precisamos aprender levar as coisas a sério, há um velho ditado que diz: “quem vai buscar, leva saco”, é preciso estar preparado para alcançar aquilo que se almeja. Da mesma forma que não vencemos esta copa sem treinar duro e seriedade, também não teremos futuro se não mostrarmos aos brasileiros de amanhã que sim, a vida é dura e o peixe é de quem o pesca. Enquanto formarmos pessoas acostumadas a receber elogios e nunca serem cobradas, enquanto formarmos gerações que não sabem o peso das conseqüências das nossas escolhas e que nunca podem ser contestadas, iremos colecionar fracassos e os fracassos do futebol será os menores e menos importantes.

É duro ver o Brasil nesta situação, e não falo de futebol. Este é nosso menor problema, sinceramente, somos uma fábrica de craques e não será difícil voltar a vencer e levantar a cabeça, desde que façamos o dever de casa, é claro.

Minha maior dor como brasileiro é ver que após esta derrota vergonhosa, também não temos um sistema de ensino decente, não temos uma saúde decente, não temos segurança, nossa economia patina e não conseguimos ver um Brasil melhor se continuarmos como estamos.

Temos agora a oportunidade de aprender com esta derrota, melhorar de vez o Brasil e deixar a diversão e a festa somente para depois das obrigações e não antes delas. Afinal, a derrota ensina mais que a vitória e esta é uma bela oportunidade de aprender, mas aprender  com quem faz direito, olhar para os melhores e fazer como eles e não nos espelhar em fracassados.


A Copa das Copas terminou em fracasso para nós, dentro e fora dos estádios. Ficamos sem nada, nem mesmo a alegria nos sobrou. Fica apenas as lições, que espero que sejamos capazes de aprender.

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